Prédios em Madeira

Construir Um Arranha Céus em Madeira

“Construir um arranha-céus?

Esqueçam o aço e o betão, afirma o arquiteto Michael Green, e construam-no… de madeira.

Como explica nesta palestra intrigante, é possível não só construir estruturas de madeira seguras com 30 andares (e, espera ele, ainda mais) mas também é necessário fazê-lo.”

No seguimento daquilo que publicámos nos artigos

Poupança Energética – Fala-se Tanto e Faz-se tão Pouco

Casas de Madeira no Ciclo do Carbono

Este é um video que vale mesmo a pena assistir, e faz com que se comece a refletir cada vez mais sobre o futuro a curto prazo.

Para além do Video deixamos aqui a transcrição na Integra:

00:12 – Este é o meu avô. E este é o meu filho. O meu avô ensinou-me a trabalhar a madeira quando eu era pequeno e também me passou a ideia de que, se cortarmos uma árvore e a transformarmos em algo,devemos honrar a sua vida e torná-la tão bonita quanto possível. O meu filho recordou-me que, entre toda a tecnologia e brinquedos do mundo, às vezes um simples bloco de madeira — se o empilharmos — é mesmo algo incrivelmente inspirador.

00:45 – Estes são os meus edifícios. Construo por todo o mundo a partir do nosso gabinete em Vancouver e Nova Iorque. Construímos edifícios de diferentes tamanhos, estilos e materiais, dependendo de onde estamos. Mas a madeira é o material de que mais gosto. Vou-vos contar a história da madeira. Parte da razão por que gosto dela é porque, sempre que as pessoas entram nos meus edifícios de madeira, vejo que reagem de forma totalmente diferente. Nunca vi ninguém entrar num dos meus edifícios e abraçar uma coluna de aço ou betão, mas já vi isso acontecer num edifício de madeira. Vi mesmo como as pessoas tocam na madeira, e acho que há uma razão para isso. Tal como os flocos de neve, não há dois bocados de madeira que possam ser iguais na Terra. É uma coisa maravilhosa. Gosto de pensar que a madeira põe impressões digitais da Mãe Natureza nos nossos edifícios. São as impressões digitais da Mãe Natureza que fazem com que os nossos edifícios nos liguem à Natureza no ambiente construído.

01:40 – Eu vivo em Vancouver, perto de uma floresta que cresce a uma altura de 30 andares. Ao longo da costa aqui na Califórnia, a floresta de sequoias cresce até à altura de 40 andares. Mas os edifícios em madeira que imaginamos têm apenas quatro andares na maioria dos lugares na Terra. Até as normas de construção limitam a nossa capacidade de construir muito mais do que quatro andares em muitos lugares. Isso é verdade aqui nos Estados Unidos da América.

02:05 – Ora bem, há exceções, mas é necessário haver algumas exceções. As coisas vão mudar, espero eu. A razão por que penso assim é que hoje metade das pessoas vivem em cidades, e esse número vai crescer 75%. As cidades e a densidade significam que os nossos edifícios vão continuar a ser grandes.Acho que há um lugar para a madeira nas cidades. E acho isso porque três mil milhões de pessoas no mundo hoje, nos próximos 20 anos, vão precisar de uma nova casa. Isso dá 40% do mundo a precisar de uma nova construção nos próximos 20 anos. Hoje em dia, uma em cada três pessoas que vivem nas cidades vive numa barraca. Isso dá mil milhões da população mundial a viver em barracas.Cem milhões de pessoas no mundo são sem-abrigo. A escala de desafio para os arquitetos e para a sociedade lidarem com a construção é encontrar uma solução para dar uma casa a essas pessoas.

03:01 – Mas, à medida que nos mudamos para as cidades, o problema é queelas são construídas nestes dois materiais, aço e betão, e são materiais ótimos.São os materiais do século passado. Mas são também materiais com uma energia muito grande e emissões de gases de estufa muito elevadas no seu processo. O aço representa cerca de 3% das emissões de gases de estufa pelo homem e o betão mais de 5%. Se pensarem nisso, 8% da nossa contribuição atual para os gases de estufa vêm exclusivamente destes dois materiais. Não pensamos muito nisso e, infelizmente, acho que nem pensamos nos edifíciostanto quanto deveríamos. Esta é uma estatística dos EUA sobre o impacto dos gases de estufa. Cerca de metade dos gases de estufa está relacionada com a indústria da construção.Se olharmos para a energia, passa-se o mesmo. Hão de reparar que os transportes vêm em segundo lugar na lista, mas essa é a conversa que mais ouvimos. Apesar de muito disso ser sobre energia,também é sobre carbono. No fundo, o problema que eu vejo é o conflito sobre como resolver este desafio de servir esses três mil milhões de pessoas, que precisam de uma casa, e a mudança climáticaque estão numa rota de colisão, prestes a acontecer ou já a acontecer.

04:19 – Este desafio significa que temos de pensar em novas maneiras. A madeira fará parte dessa solução.Vou-vos contar porquê. Enquanto arquiteto, a madeira é o único material material grande, com o qual posso construir, que já cresceu sob o poder do sol. Quando uma árvore cresce na floresta, dá oxigénio e absorve o dióxido de carbono, morre e cai no chão da floresta, devolve o dióxido de carbono à atmosfera ou ao solo. Se arder num fogo florestal, vai devolver esse carbono também à atmosfera. Mas, se pegarem naquela madeira e a puserem num edifício, num móvel ou naquele brinquedo de madeira,tem uma capacidade fantástica de armazenar o carbono e de nos dar uma captura. Um metro cúbico de madeira irá armazenar uma tonelada de dióxido de carbono. É obvio que as nossas duas soluções para o clima são reduzir as nossas emissões e encontrar armazenamento. A madeira é o único grande material de construçãocom o qual posso construir, que faz essas duas coisas. Por isso acredito que, se temos uma ética sobre a Terra nos dar comida, precisamos de uma ética neste século que é a Terra dar-nos as nossas casas.

05:32 – Como é que vamos fazer isso, se estamos a urbanizar a este ritmo e pensamos em edifícios de madeira que só têm quatro andares? Precisamos de reduzir o betão e o aço de que precisamos, para crescer mais. Temos estado a trabalhar em edifícios de 30 andares feitos de madeira. Temos estado a projetá-los com um engenheiro chamado Erich Karsh que trabalha nisso comigo. Temos estado a fazer este novo trabalho porque há novos produtos de madeira para usarmos. Chamámos-lhes painéis de madeira.São painéis feitos com árvores jovens, árvores de pouco crescimento, pequenos bocados de madeira colados juntos para fazerem painéis que são enormes: 2,5 m de largura, 20 m de comprimento e de várias espessuras.


06:12 – Descobri que a melhor maneira de descrever isto é dizer que estamos todos habituados à construção 2 x 4, quando pensamos na madeira. É o que as pessoas concluem logo. A construção 2 x 4 é mais ou menos como as peças de Lego com que brincávamos quando éramos crianças. Podemos fazer todo o tipo de coisas porreiras com o Lego nesse tamanho e com peças de 2 x 4. Lembram-se de em criançasprocurarem nas pilhas da cave e descobrirem aquela peça de Lego, com 24 pontos? Ficavam naquela:“Isto é fantástico! Posso construir uma coisa grande. “Vai ser ótimo.” É essa a mudança. Os painéis de madeira são essas peças de 24 pontos. Estão a mudar a escala do que podemos fazer. O que desenvolvemos é algo a que chamamos FFTT, — que é uma solução Creative Commons — para construir um sistema muito flexível de construção com esses grandes painéis em que erguemos seis andares de uma só vez, se quisermos.Esta animação mostra como a habitação se junta de uma maneira muito simples.Estes edifícios estão disponíveis para arquitetos e engenheiros construirem para culturas diferentes no mundo, diferentes estilos de arquitetura e caracteres. Para construirmos de maneira segura, projetámos estes edifícios, até 30 andares, para trabalhar no contexto de Vancouver, onde estamos numa zona sísmica,

07:29 – Obviamente, cada vez que falo deste assunto, — até aqui na conferência — as pessoas dizem: “A sério? Trinta andares? Como é que isso é possível?”Fazem uma série de perguntas muito boas e perguntas importantes às quais passamos muito tempo a tentar responder, à medida que preparamos o nosso relatório e o relatório avaliado pelos pares.

07:47 – Vou apenas concentrar-me nalguns deles. Vamos começar pelo fogoporque, provavelmente, é no fogo que estão a pensar agora. É normal. A maneira como o descrevo é esta. Se vos pedisse para pegar num fósforo e acendê-lo e segurar num toro e tentar incendiá-lo, não conseguiam, pois não?Todos sabemos isso. Mas para uma fogueira, é preciso começar por pedaços de madeira, continuar para cima, e finalmente podem pôr o toro no fogo. Quando puserem o toro no fogo, claro, ele arde, mas arde lentamente. Os painéis de madeira, estes produtos novos que estamos a usar. são muito parecidos com o toro. É difícil pegar-lhes fogo e, quando isso acontece, ardem de uma forma extraordinariamente previsível. Podemos usar a ciência do incêndio para prever e construir esses edifícios tão seguros como o betão e tão seguros como o aço.

08:32 – O grande problema que se segue é a desflorestação. Dezoito por cento da nossa contribuição para as emissões mundiais de gases de estufa são o resultado da desflorestação. A última coisa que queremos é cortar árvores. Ou antes, a última coisa que queremos é cortar as árvores erradas. Há modelos para o florestamento sustentável que nos permitem cortar árvores de forma adequadaEssas são as únicas árvores apropriadas para usar nesses tipos de sistemas. Eu acho mesmo que estas ideias irão mudar a economia da desflorestação. Em países com problemas de desflorestação precisamos de encontrar uma maneirade dar mais valor à floresta e encorajar as pessoas a fazerem dinheiro através de árvores com ciclos de crescimento muito rápidos — 10, 12 ou 15 anos — para fazer esses produtos e permitir-nos construir a esta escala. Calculámos um edifício com 20 andares: Plantaríamos madeira suficiente na América do Norte a cada 13 minutos. É só isso que é preciso.

09:28 – A história do carbono aqui é bastante relevante. Se construirmos um edifício de 20 andares com cimento e betão, o processo resultará na produção desse cimento e de 1200 toneladas de dióxido de carbono.Se o fizéssemos em madeira, com esta solução, iríamos capturar cerca de 3100 toneladas, por uma diferença líquida de 4300 toneladas. Isso equivale a cerca de 900 carros fora da estrada num ano.Pensem nesses três mil milhões de pessoas que precisam de uma nova casa. Talvez este seja um contributo para reduzir isso.

09:59 – Estamos no início de uma revolução, espero eu, na maneira como construímos porque esta é a primeira nova maneira de construir um arranha-céus em provavelmente 100 anos ou mais. Mas o desafio é mudar a perceção da sociedade em relação à possibilidade e isso é um desafio enorme. Na verdade, a engenharia é a parte fácil. A maneira como a descrevo é esta. O primeiro arranha-céus, tecnicamente…— a definição de um arranha-céus era ter 10 andares — … o primeiro arranha-céus foi este em Chicago.As pessoas tinham pavor de passar por baixo deste edifício. Mas 4 anos apenas após a sua construção,Gustave Eiffel estava a construir a Torre Eiffel. À medida que a construía, mudou as linhas do horizonte das cidade do mundo, mudou e criou uma competição, entre lugares como Nova Iorque e Chicago, onde os construtores começaram a construir edifícios sempre maiores e a chegarem cada vez mais alto, com uma engenharia cada vez melhor.

10:53 – Construímos este modelo em Nova Iorque, como um modelo teórico no “campus” de uma universidade técnica que está para breve. A razão por que escolhemos este local foi para vos mostrar qual poderá ser o aspeto destes edifícios, porque o exterior pode mudar. É só sobre a estrutura que estamos a falar. A razão por que o escolhemos é porque é uma universidade técnica, e acredito que a madeira é o material tecnológico mais avançado com que posso construir. Acontece que a patente é da Mãe Natureza e não nos sentimos muito confortáveis com isso. Mas é essa a maneira como devia ser, as impressões digitais da Natureza no ambiente de construção.

11:29 – Estou à procura desta oportunidade para criar um “momento Torre Eiffel”, como lhe chamamos. Os edifícios estão a crescer em todo o mundo. Há um edifício em Londres que tem nove andares, um novo edifício que foi agora terminado na Austrália que acho que tem 10 ou 11. Estamos a começar a aumentar a altura destes edifícios de madeira e esperamos — eu espero — que a minha cidade natal, que é Vancouver, anuncie o edifício mais alto com cerca de 20 andares num futuro não muito distante. Esse momento Torre Eiffel vai quebrar o teto, esses tetos arbitrários de altura, e permitir que os edifícios de madeira se juntem à competição. Acredito que a corrida começou.

12:05Obrigado.

12:07(Aplausos)

NOTA: Esta é uma Conferência TED.

TED é uma organização sem fins lucrativos dedicada à difusão das idéias, geralmente na forma de poderosas palestras curtas (18 minutos ou menos).

TED começou em 1984 com uma conferência onde Tecnologia, Entretenimento e Design convergiram, e hoje abrange quase todos os temas – da ciência à empresa para questões globais – em mais de 100 línguas.

Enquanto isso, executam-se de forma independente eventos TEDx, para ajudar a compartilhar ideias em comunidades ao redor do mundo.

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